Ontem, hoje e amanhã

 
 
Quando interessa ao Ministério (ME), os sindicatos parecem ter pouca representatividade. É pena que os membros do ME não pensem sempre assim, pois se dessem ouvidos a quem está nas escolas e não em gabinetes como eles (sindicatos e membros do ME, entre outros), governariam melhor... Além disso, não fica bem ao Ministro apelar ao bom senso dos professores, para não fazerem greve nos dias dos exames nacionais. Onde estava (e o que defendia) ele no tempo das passagens administrativas?
 
Antes desse tempo, havia o livro único. Actualmente, há: o professor-aplicador das provas aferidas; textos "pós-realistas" (ou "neo-neo-realistas") de autores "pós-modernos" nas provas aferidas (como o da prova aferida de Língua Portuguesa do 6.º ano); ... Eis como poderá ser o texto da prova aferida do 9.º ano: "Um aluno acabou de ameaçar mais uma vez a professora com uma navalha e saiu da sala a correr pelos corredores, deixando por terra uma funcionária. Saíu da escola sem obedecer ao porteiro e assaltou uma loja que vende tabaco junto à escola. Nesse dia, não lhe apeteceu dormir em casa e participou num assalto nocturno a uma bomba de gasolina. Aí, teve tempo para observar o noticiário que passava no televisor e ouviu que haveria mais uma amnistia (esse ano, no dia 10 de Junho), e pensou: "os meus problemas estão resolvidos; posso dormir aqui sossegado. Amanhã verei a que professor apontarei a navalha..."."
 
(Ainda) são os tempos ditados por quem está desfazado no espaço (receitas de países culturalmente diferentes) e no tempo (receitas de muito-antes da queda do Muro de Berlim). Enfim, trata-se também da ressaca de quem nunca conseguiu governar num espaço internacionalista e num tempo em que tudo o que estava para trás não interessava...
 
 
Mário Lima
Junho de 2001

 

Demissão na Educação

O "responsável" pela Prova Aferida de Língua Portuguesa do 6.º Ano ainda não se demitiu / foi demitido? Pois quem se demite da função de Educador, deve ser coerente e demitir-se de tudo. Claro que os responsáveis máximos que autorizaram esse responsável, devem dar, antes, o exemplo... contribuindo para a poupança nas despesas públicas!

Mário Lima
Junho de 2001

 

 

Prova de Aferição de Língua Portuguesa – alguns esclarecimentos


Face aos comentários que têm sido produzidos sobre o extracto do conto «O Rapaz e o Robô», de Luísa Ducla Soares, extracto que serviu de base à prova de aferição  de Língua Portuguesa, 6.º ano de escolaridade, impõem-se alguns esclarecimentos.

Não pretendendo fazer, a esse propósito, uma irredutível apologia da opção efectuada – qualquer escolha é sempre passível de discussão – considera-se importante elucidar alguns aspectos envolvidos na discussão e restituir os termos do problema às suas verdadeiras dimensões.

Afirmam alguns críticos que o texto fere princípios éticos de educação para a cidadania  cuja construção o Sistema Educativo, os pais, a sociedade em geral pretendem favorecer: que promove a desvalorização da matemática, que incita à violência, que premeia a desobediência; acusam ainda a prova de passar ao lado dos aspectos “negativos” da história.

Ora uma leitura mais serena e rigorosa do texto permite perceber que ele constitui uma encenação verosímil de um problema real e significativo para os alunos – o insucesso a Matemática – gerador, neste caso, de um sentimento meramente pessoal de frustração e de impotência e não, contrariamente ao que se pretende fazer crer, um pretexto para tecer «referências menos abonatórias à disciplina». O texto também não produz qualquer incitação gratuita à violência (a pedra acertou no vidro da montra «por azar» e não por intenção deliberada da personagem), ou à desobediência (a personagem acata o castigo dos pais e vai para o quarto sem comer).

Representa a «transgressão», mas ela ou é produto das circunstâncias, e não de premeditação, ou é algo que existe sobretudo na esfera do pensamento e da efabulação próprios de um miúdo.

Nesse sentido, inferir do seu conteúdo a negação dos princípios  invocados é um processo de intenções abusivo.

O texto desperta ainda o imaginário do aluno ao recriar uma situação insólita e dilemática – paralela à função que teria, num conto tradicional, o achado de um tesouro – não o fazendo de modo a premiar comportamentos ilícitos, mas apenas de forma a desencadear um mecanismo de expectativa: isto é, embora pareça sugerir que o miúdo pensa ter achado uma solução para os seus problemas, o final do excerto não a apresenta como garantida e, portanto, não é dado ao aluno como certo e seguro que o desfecho que a personagem  imagina alguma vez se concretize, tanto mais que a sua materialização num robô cria imediatamente a dúvida sobre a sua viabilidade real.

No que respeita a este ponto não é exacta a afirmação de que nenhum dos itens da prova questiona os comportamentos da personagem na perspectiva dos valores. Concretamente, o item 7.2. (“Por que motivo o João procurou um nome e uma morada?”) obriga o aluno a evocar uma regra ética básica, expressa, aliás,  nos critérios de classificação distribuídos: «O João procurou um nome e uma morada para saber a quem pertencia a pasta / para poder entregar a pasta ao seu dono.» Note-se ainda que o item 12. solicita aos respondentes que identifiquem atitudes que a personagem foi tomando ao longo da história, duas das quais marcadamente negativas (“atrevimento” e “irritação”).

Estes são os esclarecimentos que, como responsável por esta instituição, julgo  necessário e pertinente apresentar. Como é óbvio, não é minha intenção tecer comentários ao modo como o primeiro texto que produzi foi, nesse jornal, transformado em excertos e, em consequência, ao modo como foi desvirtuado o sentido último de palavras e citações nele contidas.

Pela minha parte encerro aqui a minha intervenção nesta matéria.

Glória Ramalho
Directora do Gabinete de Avaliação Educacional
Junho de 2001