O contexto curricular e as reformas necessárias


Antes da análise à proposta do DES (Novembro de 1999), convém sublinhar que, mais que uma revisão curricular, impõe-se uma verdadeira Reforma Curricular, no âmbito da próxima Reforma Educativa. A última não esgotou todas as possibilidades, como foi fácil de prever quase no início da sua implementação. Foi elaborada por um grupo, que além de ser restrito, não coordenou posteriormente a sua execução. Desde há dez anos, assiste-se, quase diariamente, a inflexões, contradições, ajustamentos, de um modo desarticulado e sem rumo, não alcançando, por isso e em cada momento, os fins propostos. Além disso, a concretização do currículo continua a depender da formação inicial de professores e não o contrário e as escolas continuam a projectar-se e a construir-se com as mesmas características de há décadas: salas "normais" (sem recursos) e salas específicas para algumas disciplinas (com poucos recursos).


Deve-se recordar que estamos prestes a completar dez anos sobre o início da implementação generalizada da Reforma Curricular, no âmbito da última Reforma Educativa, iniciada em 1986; desde então, procedeu-se a diversos ajustamentos no Sistema e, em particular, nos programas disciplinares; e está prevista uma revisão curricular, de 2000 até 2002. Talvez com os mesmos meios financeiros, em lugar de criar sucessivos gabinetes e comissões, se pudesse apostar em melhorar quantitativa e qualitativamente os recursos educativos humanos (incluindo o desenvolvimento profissional dos professores) e materiais (incluindo equipamentos educativos e materiais didácticos), esgotando-se todas as potencialidades da anterior Reforma Educativa. Só então, já com todos os dados que permitiriam uma avaliação coerente, proceder-se-ia a ajustamentos. Contudo, agora já começa a não haver tempo, sendo necessário começar a pensar na próxima reforma, talvez a implementar daqui a menos de dez anos.

(Reformas, revisões, ajustamentos…, Abril de 1999)

 

Os currículos e os programas resultantes da última Reforma Educativa (1989,-) apontam para a inovação nas finalidades e nos objectivos, conteúdos e metodologias, e na avaliação do ensino-aprendizagem da Matemática. (…)

Contudo, apesar destas indicações e de alguma inovação nos métodos de ensino, tem-se ficado muito além do que seria desejável - por vários motivos; um deles é a gestão de espaços educativos e recursos materiais nas escolas. Nas aulas de Matemática, ainda prevalece o espaço da sala de aula "normal", isto é, apenas com mesas, cadeiras e o quadro de giz, na forma tradicional, e (nem sempre) um retroprojector. Incompreensivelmente, nos nossos dias, projectam-se e constroem-se escolas que dispõem dos já habituais espaços específicos (gimnodesportivos e salas artísticas, técnicas e laboratoriais), mantendo as salas "normais" para as restantes disciplinas. Estas dispõem de poucos materiais didácticos, geralmente guardados em armários ou arrecadações, longe das salas de aula. Só agora, e quase exclusivamente, no ensino secundário, se começa a implantar laboratórios de matemática. Refira-se, ainda, a inexistência de espaços próprios para o trabalho interdisciplinar.

Há, pelo menos, duas alternativas à actual situação: ou todas as salas de aula estariam equipadas convenientemente, de modo a satisfazer as disciplinas (sala de aula - turma); ou as disciplinas ainda não contempladas, disporiam de espaços próprios (sala de aula - disciplina). A segunda hipótese parece ser a mais viável, pois seria mais eficaz na rentabilização de equipamentos e materiais. É nesta perspectiva que se enquadra o Laboratório de Matemática: (…)

(Projecto de Laboratório de Matemática na Educação Básica, Dezembro de 1999)

 

Um sinal da descoordenação da política educativa, é o acentuar da tendência para o Básico, o Secundário e o Superior estarem de costas voltadas, cavando um fosso cada vez maior entre os dois níveis. O que é facilitado pela orgânica do Ministério da Educação, com a separação dos departamentos da Educação Básica e do Ensino Secundário. Como se pode verificar nas propostas de revisão curricular elaboradas e emanadas separadamente pelos dois departamentos (apenas divulgada a do Básico, pelo DEB),
não se especifica qualquer articulação entre os níveis, com uma única excepção: insiste-se em considerar o 10.º ano como um ano de adaptação ao novo ciclo de estudos. A Educação Básica encontra-se dispersa em três ciclos, com os dois últimos a sobreporem-se em muitos aspectos, prolongando-a artificialmente, agora, fisicamente num mesmo estabelecimento de ensino, durante pelo menos cinco anos! Nesta altura, já se fala do alargamento da escolaridade obrigatória (diversificada!) até ao 12.º ano. Porque não se estuda concretamente isso, em vez de adoptar mais medidas intercalares, que quando se concretizarem, já estão desactualizadas? Aproveite-se a tipologia das escolas (não as escolas básicas integradas, mas as "EB23"), para definir um ciclo médio (de quatro anos, e não de dois mais três), após o 1.º ciclo (o actual) a antes de um ciclo final (a iniciar no 9.º ano).

 

Se passarmos a considerar o 10.º Ano de escolaridade como o ano vestibular do ensino secundário, corremos o risco de aprofundar o ciclo vicioso que se instalou na transição entre ciclos de estudos. É possível conciliar um nível de exigência, com métodos actuais, que incluem a diversificação curricular. Porém, tal só se torna viável se for posto em prática, de modo adaptado e gradual, logo a partir do início da escolaridade obrigatória. (…)

Voltando ao ciclo vicioso que se tem instalado em toda a escolaridade, este deve-se a alguns factores que se interpõem:

  1. a indefinição do papel do ensino secundário, ensanduichado entre os ensinos básico e superior, e uniformemente licealizado, mesmo após o surgimento do ensino profissional;
  2. a ausência de intercâmbio entre os vários níveis de escolaridade não superior (mesmo entre os 2.º e 3.º ciclos de um mesmo estabelecimento de ensino!), e entre os ensinos não-superior e superior, manifestados pelos raros e inconsistentes projectos curriculares entre estabelecimentos de ensino;
  3. a consequente ineficácia da implementação dos currículos, através de repetições (sem evolução) de alguns tópicos e ausência de abordagem de outros, e muitas vezes sem atender aos objectivos geriais de cada nível de ensino;
  4. o número elevado de anos que um aluno permanece no mesmo estabelecimento de ensino (2.º e 3.º ciclos), prejudicando a sua evolução física, psíquica e social que é, ainda, rápida;
  5. a consequente inadaptação de muitos alunos ao sistema de ensino da escolaridade obrigatória, quase uniformizado, perdendo quer hábitos de estudo, quer hábitos de trabalho;
  6. a cultura de facilitismo que impera nas escolas do ensino básico e que se arrasta, agora, até ao 9.º ano de escolaridade; e
  7. o consequente fosso entre o 3.º ciclo e o secundário, com incidência particular no 10.º Ano.

Por isso, é que, transformando o 10.º Ano num ano vestibular contribuir-se-ia, não para a resolução do problema, mas para o seu agravamento. Com um intercâmbio eficaz entre os vários níveis de ensino e com uma reorganização destes, é possível atingir os objectivos educacionais propostos até ao final do 9.º Ano, já no fim do 8.º ano de escolaridade. O novo 9.º Ano consistirá no primeiro ano do ciclo final de estudos não-superiores. O 12.º Ano pode destinar-se apenas ao subsistema vocacionado para o prosseguimento de estudos superiores. A actual rede escolar não é entrave à reorganização de três ciclos de ensino não-superior: um inicial, que se mantém; um médio (5.º - 8.º), que se adequa às escolas "EB 2, 3 (C+S)" actuais; e um final (9.º - 11.º/12.º), nas actuais escolas secundárias.

Assim, e antecipando a generalização da(s) escolaridade(s) obrigatória(s) até ao 12.º Ano, que será alvo na próxima reforma educativa, propõe-se, a partir da sua implementação, que:

  • a escolaridade não-superior é obrigatória para todos os alunos;
  • o ensino não-superior consta de três ciclos de estudos: um inicial (1.º - 4.º); um médio (5.º - 8.º); e um final (9.º - 11.º/12.º anos);
  • cada estabelecimento de ensino é destinado apenas a um ciclo de estudos;
  • o ciclo final contém vários subsistemas de igual importância (os actuais: regular, artístico, profissional e recorrente; e, eventualmente, outros);
  • o 9.º Ano (primeiro do ciclo final), em cada subsistema, é homogéneo (a diversificação curricular - inerente a cada subsistema - inicia-se no 10.º Ano);
  • o 12.º Ano destina-se apenas aos alunos que frequentam os subsistemas destinados aos prosseguimento de estudos superiores;
  • a transição para um novo ciclo depende de uma avaliação global da aprendizagem dos alunos no ciclo anterior.

 

(Reformas, revisões, ajustamentos…, Abril de 1999)

 

Por tudo o que se referiu, a análise às actuais propostas será feita, quer no âmbito do contexto curricular, quer atendendo à sua natureza (separadamente, Básico e Secundário). Lamenta-se que o DES não disponibilize no seu site a proposta de Diversificação Curricular do Secundário e que as instituições representativas dos professores (sindicatos, sociedades e associações) não lhes divulgaram esses documentos antes de emitirem um parecer; algumas, ainda os não divulgaram, mesmo após terem tomado uma posição sobre eles.

 


Mário Jorge da Silva Lima 
29 de Janeiro de 2000