Diálogo sobre a Revisão Curricular
1.ª Parte
2.ª Parte
Final

 

1.ª Parte:



JCS - Já existe versão final? Onde se pode encontrar tal versão?

MJL - Eu pensei que era a final. É que não tive conhecimento da(s) intermédia(s)...

JCS - Mas porque não comenta? Não estavam já na versão de Novembro de 1999? Porque não fez chegar as suas opinioes ao DES, a estas listas, às associacoes ou à comunicacao social atempadamente?

MJL - Comentarei em breve, detalhadamente. De facto, a versão que eu conheço
é a de Novembro, mas só a consegui agora, pelo que "atempadamente" depende
da data da recepção da proposta. E não foi através, nem do DES (a página na
web tem a secção "Currículos" em construção), nem da APM, nem da SPM, que deveriam divulgar aos seus associados a proposta do DES, mas não o fizeram.

JCS - E' exactamente por defice de intervencao em situacoes como estas que chegamos a casos bicudos como o que descreve a seguir.

MJL - De facto, é! É de lamentar que tenha sido alguém (21 de Janeiro de
2000) que nem é das direcções da APM ou da SPM, ou da Comissão de
Acompanhamento
(que, na sua página se esqueceu de incluir o programa ajustado!), que inaugurou a discussão da revisão curricular na lista de discussão SEM e enviou os comentários iniciais a professores e a instituições diversas. E se a proposta é de Novembro, houve algum tempo para todos (os que a conheciam) se pronunciarem... A APM elaborou um parecer, mas só depois de alertada, é que disponibilizou o seu parecer na sua página (26 de Janeiro). O caso é ainda mais "bicudo", porque muitos dos que têm elaborado propostas para o (ou no âmbito do) DES, foram traídos...

JCS - Estamos a pagar o preço do desastre que se chamou "Métodos Quantitativos". Esta disciplina teve um programa inadequado, que em tempo nunca foi discutido (apareceu de pára-quedas), nunca foi apoiado (em particular as boas experiências nunca sairam para fora das poucas escolas onde aconteceram), nunca foi ajustado (houve poucas pressoes nesse sentido) e até podia (e era) leccionado por professores de outros grupos que não o de Matemática. Quem se bateu por uma substituição digna dos Métodos Quantitativos?

MJL - Também foram traídos os membros do projecto relativo aos Métodos
Quantitativos para o Agrupamento Artístico. Não deixa de se caricato que
esse projecto tem um capítulo próprio na brochura "Projectos Educativos", do
DES (1998). Em vez de se estimular projectos como esse, criando uma
"Matemática C" (J.P.Ponte, DES-Évora, 1998) - substituição mais que digna
dos "Métodos"-, vai-se pelo que é mais fácil em política nos nossos dias:
cede-se a muitos lobbies e, por isso, acaba-se de vez com a Matemática
nalguns agrupamentos (cursos gerais).

JCS - No Simposio sobre o Ensino da SPM de 1999, levantei a questao e "iam-me matando" por eu defender Matemática para todos! Eu ainda tentei propor, tal como em França, que existisse uma disciplina de "Educação Científica" para os alunos de Humanísticas... Mas... Mas, por um lado há a decisão (que ninguém contestou, segundo me pareceu) de diminuir o número de disciplinas e de diminuir a carga horária global. Por outro há alguma péssima prática da disciplina de matemática que afasta muitos alunos da disciplina. Os decisores do Ministério da Educação (não é o Director do DES que "faz" a Reforma Curricular, é o Ministro da Educação) têm de estar obviamente receosos e hesitantes sobre o que fazer com a abrangência da discplina de Matemática. E este não é um problema português. Vou citar aqui o que li na revista "Le Nouvel Economiste" de 13 de Janeiro de 2000, a propósito da falta de alunos nas opções científicas no secundário em França: "E' uma consequencia directa da reforma do Bac, com coeficientes demasiado dominantes para as materias científicas. No sistema francês, coloca-se o foco demasidado cedo sobre a capacidade de abstracção e a inteligência conceptual. Isto desencoraja muitos." nota Christina Vuillez [director dos ensinos na câmara de comércido de Paris]

MJL - Quem está no Governo ou em cargos de nomeação por este (o cargo de Director do DES não se submeteu a concurso público) tem responsabilidades, pelo menos de solidariedade política! Assim, se não concorda com o ME, só
tem que se demitir; se não o fizer, é porque concorda. Quem tem medo de tomar decisões difíceis, não pode assumir esse tipo de cargos. É assim que se comemora o Ano Mundial da Matemática? Se nem membros com responsabilidade da Comunidade Matemática defendem esta Ciência, quem a defende?

- Afinal, quais são os desafios do Século XXI?
- A matemática já não é uma chave para o desenvolvimento?
- Deve-se aceitar e sublinhar a actual imagem da Matemática?

Nota final:

JCS - Mas sabe, estou satisfeito com uma coisa: cada vez ouço mais explicadores a dizer algo como o seguinte: "Antes eu conseguia preparar qualquer aluno para o exame do 12º ano num mês e agora já não consigo!" Acho que estamos a ir no bom caminho!

MJL - Concordo com isso! Gostaria ainda que os professores fossem livres de escolher individualmente os manuais (Encontro Regional do Porto, 1997), ou nem sequer adoptar algum, mas há muitos interesses instalados, envolvendo editoras e autores, não há?

 

2.ª Parte:

 
JCS - Que eu saiba não houve intermédias (ou se houve foram apenas internas do Ministério). Mas a discussão não começou com essa versão. Começou com os Encontros do Secundário que o DES iniciou há uns dois anos e onde todos os professores do Secundário, associações, etc, foram chamados a pronunciar-se. Desses encontros sairam 2 livros editados pelo DES; foram ainda produzidos pelo Ministério da Educação dois documentos de orientação geral que já definiam as traves mestras da Revisão Curricular. Não foi em Novembro que a discussão começou.
 
MJL - Claro que não foi em Novembro último! Eu não me referia à discussão inicial, mas sim à discussão em torno de propostas já da iniciativa do DES. O Ministério tem editado alguns documentos, mas eles continuam a não chegar de forma eficaz aos professores (a todos!), por culpa do ME e das instituições que dizem representar os professores.
 
JCS - Basta procurar bem que esta' la' a ligação (é que em 7 Mega não se pode meter tudo) E mais: estão também nessa ligação as versões que serviram para discussão e alguns pareceres da altura. Muito material para discussão e reflexão! E se ja' tinha reparado nesse tal "esquecimento" ja' podia ter feito essa sugestão aos responsaveis (os nomes estao la'!) em vez de vir apontar o dedo na praça pública!
 
MJL - So são 7 Mega, porque o ME não disponibilizou um endereço oficial (do tipo: www.des.min-edu.pt/acomp_mat), o que eu já referi várias vezes por email, mas sempre sem resposta do DES. Insisto que o Programa Ajustado (1997) não consta da página do Acompanhamento, como se pode confirmar observando o "índice" e os "recursos". Estão outros materiais e ligações, mas não o Programa! Aproveito para referir que, felizmente, a Comissão de Acompanhamento não cometeu o mesmo erro que o DES (este, considerou as brochuras "Didáctica" e "Projectos Educativos", destinados, respectivamente, a apoiar o 10.º e 11.º anos!) Noto, ainda, que existe uma ligação para o documento "Diagnóstico e Propostas para a Matemática Escolar" (SEEI, Julho de 1997), que nunca foi divulgado pelo ME junto dos professores (mais um documento resultante das muitas comissões!). Quanto aos responsáveis, foram designados pelo ME, pelo que já alertei o DES várias vezes para alguns pormenores (esse do Programa é que referi apenas no email anterior). Prefiro a "Praça Pública" às conversas de bastidores e às tomadas de decisão dadas a conhecer previamente apenas aos amigos... Esta "Praça Pública" é o meio mais eficaz de todos (sublinho: todos) poderem manifestar a sua opinião e dialogar abertamente.
 
JCS - !!!!!!!!!
 
MJL - Sim, foram traídos. Basta dar o exemplo do documento "Diversificar os Programas de Matemática?" (J.P.Ponte, DES-Évora, Julho de 1998), que considera insustentável que os alunos tenham apenas "Métodos" como actualmente, propondo "Matemática (tronco comum", no 10.º ano) e "Matemática C", no 11.º e 12.º (opção, mas explícita!). O que o DES agora apresentou não constitui uma traição, inclusive a si próprio?
 
JCS - Eu não vejo que numa sociedade democratica como a nossa devamos esperar que as nossas posicoes sejam subscritas a 100% pelos outros ou pelo poder. Devemos ter a humildade de reconhecer que talvez não estejamos certos e que e' preciso trabalhar e mostrar trabalho para melhor convencermos terceiros. Apesar de eu ter reservas sobre certos aspectos da actual Revisao Curricular acho que estamos a progredir. O que falta so' me leva a trabalhar mais para que na proxima revisao possamos ir ainda mais longe. E isto independentemente de quem esteja no DES ou no Ministerio da Educacao.
 
MJL - Eu também acho que estamos a progredir, se bem que muito lentamente, às vezes com passos para trás, desde o início da Reforma Educativa. Por isso é que considero que a questão de fundo é a que refiro no texto "O Contexto Curricular e as Reformas Necessárias" (enviada também para sem@fc.ul.pt). Claro que todos não podem ter a mesma opinião e a nossa não será sempre a "mais" correcta. Mas, se este processo dá passos em frente, também dá um passo atrás, desperdiçando o que de positivo tinham os "Métodos": como é que, depois de "libertar" esses cursos gerais da Matemática, irá introduzir-se, mais tarde (adiar, adiar...), novamente, esta disciplina científica? Insisto que não há pior modo de comemorar este Ano Mundial da Matemática!
 
JCS - !!!!!!!!!
 
MJL - O projecto dos Métodos Quantitativos para o Agrupamento Artístico será deitado, por isso, no lixo!
 
JCS - E' uma ideia que ja' tem sido avançada por alguns. Mas não me parece que tenha sido suficientemente discutida. Pelo menos não me parece suficientemente convincente.
 
MJL - No II Encontro Regional do Porto (1997) levantei essa questão, mas os membros da mesa (entre eles, os colegas Jaime Carvalho e Silva e Maria Augusta Neves) não pareceram interessados em discutí-la... Claro que nunca haverá muita à-vontade para discutir, devido (repito, neste email) aos interesses das editoras e dos autores.
 
JCS - De acordo com a lei actual isso é possível. Não sabia?
 
MJL - Claro que sei! É pena que, na Matemática, não haja o hábito que outras disciplinas têm de não se "sentirem obrigadas" a adoptar manuais. O exemplo devia vir, também, de quem tem responsabilidades: por exemplo, avaliando os manuais. Só em encontros e conversas, sem a presença do outro autor, é que se critica o seu manual, que "não está de acordo com o Programa"; em frente do autor, diz-se que "todos os manuais cumprem o Programa e os professores é que devem saber utilizá-los"...
 
Que fique claro que eu não pretendo diferenciar-me dos actuais decisores, pela negativa, como os que defendem o "Mathematically Correct" em terras lusas. Estou de acordo com as tendências actuais, mas com achegas, algumas das quais refiro nos textos "O Contexto Curricular e as Reformas Necessárias" e "Reformas, revisões, ajustamentos...".
 

Final:

Caros colegas,
caro colega Jaime Carvalho e Silva:


Motivado pelo exemplo seguinte, declaro encerrados estes "diálogos", se bem que não a discussão sobre a Revisão Curricular:
"MJL - O que o DES agora apresentou não constitui uma traição, inclusive a si próprio?"
"JCS - Que excesso verbal!!! Eu não mando no Ministério! (...)"
Mais alguém não percebeu que me referia ao DES? Para que não haja dúvidas: o DES (Novembro de 1999) traíu o DES-Évora (Julho de 1998)!
Assim, não vale mesmo a pena continuar...
 
Posso ainda falar do deficiente acesso que as escolas têm à internet (as que têm acesso!), para obter a documentação do ME (quando está lá disponível!). Por exemplo, no início de 1997, só obtive o Programa Ajustado em discussão, fotocopiando-o (!), porque só enviaram 2 (dois!) exemplares para a escola, não estando na internet (os anexos nunca estiveram e posso ver o Programa - sem anexos - no "Nonius"), nem sequer (na altura) disponível para venda! (Aproveito para informar que o documento "Diagnóstico e Propostas para a Matemática Escolar" está disponível na secção "Educação Matemática" da página http://go.to/estagio em formato html, de fácil leitura. Não deveria ter sido a SEEI a disponibiliza-lo?)
 
Devo notar que, para dirigir qualquer instituição, é preciso ter disponibilidade, concordar com os seus princípios e ter o apoio da maioria dos membros. Porém, qualquer um pode e deve criticar, não nas costas nem nos bastidores, mas na Praça Pública (seja!), que é o local próprio acessível a todos (nem que seja a partir da residência, com um email pessoal e não profissional).
 
Observo também que para pertencer a (ou colaborar com) um dado organismo, é necessário respeitar as incompatibilidades inerentes às funções exercidas. Mesmo que não estejam na Lei (formalmente), estão na Sociedade (eticamente). Só assim, qualquer momento torna-se oportuno para discutir qualquer assunto relevante: basta que os intervenientes não tenham preconceitos em debatê-la... Quando esses e outros intervenientes deixarem de pressionar (directa e indirectamente) os professores quanto a manuais, então haverá condições para se debater em condições esta temática, nas escolas e não só.
 
Antes de escrever este texto, tomei conhecimento do início do "Reajustamento do Programa de Matemática [do Secundário]". Quem aceita as medidas recentes do DES, colaborando com ele, tem a mesma diginidade que os endereço das páginas do "Ajustamento" e do "Reajustamento" têm. E (como já esperava): as matemáticas A e B aparecem na ordem de trabalhos, como se a proposta já estivesse aprovada!!! (Isto é grave, não acham, professores e instituições?)
 

Até breve,
 
Mário Jorge Lima
http://go.to/mariolima
mariolima@hotmail.com

 

A propósito de:
-----Original Message-----
From: Jaime Carvalho e Silva <jaimecs@mat.uc.pt>
To: Mário Jorge da Silva Lima <mario.lima@netc.pt>
Date: Domingo, 23 de Janeiro de 2000 11:08
Subject: Re: revisão curricular