Ministério da Educação
Secretaria de Estado da Educação e Inovação
Grupo de Trabalho para o Ensino da Matemática
Julho de 1997

DIAGNÓSTICO E PROPOSTAS PARA A MATEMÁTICA ESCOLAR

Apresentação

 

Este documento apresenta um levantamento dos principais problemas que, na perspectiva do Grupo de Trabalho para o Ensino da Matemática, afectam o ensino desta disciplina em Portugal, bem como um conjunto de propostas de intervenção tanto a curto como a médio prazo.

No levantamento consideram-se, em primeiro lugar, os problemas ao nível do enquadramento legal, os problemas na gestão e funcionamento da escola e do sistema educativo e os problemas ao nível dos recursos materiais, que na sua maior parte não são específicos da disciplina da Matemática. De seguida, abordam-se os problemas ao nível dos recursos humanos e do contexto social que assumem aspectos muito específicos no ensino desta disciplina. Finalmente, aponta-se o problema principal, em grande medida resultado dos restantes, que reside no facto da não aplicação no dia-a-dia do processo de ensino-aprendizagem de muitas das linhas essenciais dos programas de Matemática existentes.

A modificação da situação do ensino da Matemática no nosso país passa pela acção de professores, alunos e autoridades educativas mas exige igualmente o concurso de numerosos outros intervenientes. Neste ponto, tomando como principal referência o passado recente, fazemos uma breve indicação dos recursos institucionais e humanos ligados à Matemática e ao seu ensino que será desejável mobilizar para a resolução dos problemas existentes e para a criação de uma atmosfera de sucesso na Matemática escolar.

Vivemos, neste momento, numa fase de transição para um novo conceito de currículo. De um currículo nacional normativo e extremamente pormenorizado, caminha-se para um currículo mais flexível, gerido localmente e adaptado às condições locais. Os contornos da nova perspectiva de currículo ainda não são muito claros (qual a margem do que é nacional e do que é local? qual é verdadeiramente o novo papel do professor em matéria de gestão curricular? que implicações para a formação tem esse novo papel do professor?) mas a constatação que a velha noção já não serve as necessidades do sistema educativo impõe-se por si mesma.

Para ultrapassar os problemas existentes e preparar a entrada numa nova fase, que corresponda a este conceito renovado de currículo, sugerimos cinco medidas fundamentais e diversas medidas complementares. Estas medidas permitirão actuar sobre as diversas áreas que interferem mais directamente no ensino da Matemática, como se evidencia no esquema da página seguinte.

A vertente fundamental da presente proposta é a Iniciativa Nacional de Formação de Professores, que pretende constituir uma resposta às dificuldades nas concepções, práticas e cultura profissional de muitos professores e à sua falta de actualização científica e didáctica tendo em conta a aplicação dos currículos em vigor, procurando-se igualmente colmatar as sérias lacunas existentes em termos de formadores habilitados e de apoios à investigação-acção.

Embora essencial, esta medida, por si só, não será suficiente para a resolução dos problemas da disciplina de Matemática. Ela tem de ser operacionalizada tendo em vista mudanças sistémicas no funcionamento da escola e no currículo, que deverá evoluir no sentido de uma maior flexibilização. Para isso deverá também proceder-se:

• À elaboração e operacionalização de um programa de desenvolvimento curricular, suportado por uma lógica de investigação, que envolva tanto a reconsideração global do currículo como a produção de materiais específicos de apoio ao professor e a usar pelos alunos;

• À melhoria das condições de ensino-aprendizagem nas escolas, sustentada pelo desenvolvimento de uma prática de gestão curricular pelos professores, segundo uma perspectiva de projectos educativos, bem como pelo reforço dos meios disponíveis, com a criação de Laboratórios de Matemática para alunos e de salas de trabalho para professores de Matemática;

• À criação, a diversos níveis, de estruturas de apoio às escolas, tendo em vista as lacunas existentes nos diversos níveis de ensino, e que inclui a criação de equipas de apoio directo aos professores ao nível dos territórios educativos e de uma rectaguarda no Instituto de Desenvolvimento Curricular e de Apoio à Distância, aproveitando as novas tecnologias de informação e comunicação.

 

Quadro esquemático das propostas prioritárias

para a Matemática escolar

 

A Comissão Nacional de Matemática constitui outra importante componente transformadora da situação existente pelo seu potencial papel criativo e mobilizador. O lançamento de iniciativas que promovam a divulgação de trabalhos e actividades contribui inevitavelmente para uma dinamização de professores e alunos nas escolas, influenciando deste modo as práticas educativas, os currículos e a própria aprendizagem.

 

A investigação em Educação Matemática poderá ajudar a aprofundar o diagnóstico agora realizado e dar indicações decisivas para a mudança do sistema. Ela necessita de um programa específico de desenvolvimento, a ser realizado pelas Instituições do Ensino Superior e pelo IIE, em colaboração com as escolas. A consistência e continuidade das acções propostas no sentido da desejada mudança, dependem da avaliação e da investigação que for desenvolvida em simultâneo com as medidas já enunciadas.

Propõem-se, ainda, diversas medidas complementares sobre recursos humanos (incluindo a formação inicial de professores), recursos materiais e aspectos de funcionamento do sistema educativo, incluindo os apoios aos alunos e a revisão da legislação sobre gestão pedagógica intermédia.

Porque todas as medidas propostas se interrelacionam e interagem, potenciando-se mutuamente, propõe-se que se dê início a este conjunto de medidas em simultâneo e de acordo com a calendarização prevista.

 

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