|
|
|
|
Secretaria de Estado da Educação e Inovação Grupo de Trabalho para o Ensino da Matemática Julho de 1997 DIAGNÓSTICO E PROPOSTAS PARA A MATEMÁTICA ESCOLAR
2 RECURSOS
2.1 Associações profissionais e sociedades científicas
Entre as associações com intervenção nos problemas do ensino e aprendizagem da Matemática cabe referir, em primeiro lugar a Associação de Professores de Matemática (APM). Criada em 1986, esta associação tem vindo a constituir um espaço privilegiado para a discussão dos problemas com que se defrontam os professores desta disciplina e para a divulgação e troca de experiências. A APM tem uma actividade que envolve uma percentagem assinalável dos professores portugueses, contando com mais de 4000 associados, professores de todos os graus de ensino, do 1º ciclo do ensino básico ao ensino superior, além de estudantes de cursos de professores de Matemática, distribuídos por todas as regiões do país e no estrangeiro. É, a nível internacional, uma das organizações profissionais mais activas no campo da Educação Matemática. Esta associação organiza um encontro anual, o ProfMat. A sua importância tem vindo a afirmar-se de ano para ano, prevendo-se que as inscrições em 1997, à semelhança de anos recentes, se situem nos 1500 professores. Desde o primeiro encontro, realizado em Lisboa antes da criação oficial da APM, e do segundo, realizado em Portalegre e onde a associação foi fundada, o ProfMat foi realizado sempre em cidades diferentes, incluindo Bragança, Faro e Ponta Delgada. Cerca de 70% das conferências, sessões práticas, grupos temáticos e comunicações, além das feiras de ideias e materiais e a exposição aberta à população são da responsabilidade dos participantes do encontro, na sua grande maioria professores dos diferentes níveis de ensino, sendo o restante assegurado por personalidades convidadas, nacionais ou estrangeiras. O ProfMat, debatendo as grandes questões da actualidade educativa, dando a conhecer novas ideias, recursos e materiais, proporcionando um contacto com problemas e experiências em curso noutros países e estimulando a troca de experiências e de informação dos professores, constitui uma referência fundamental, marcando anualmente a sua agenda profissional. Actualmente, e devido à necessidade de descentralização que o seu crescimento provocou, a APM está organizada em 17 núcleos regionais, a par de uma estrutura central situada em Lisboa, que cobrem o território do Continente e das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores. Para além de outras acções, os núcleos promovem também encontros regionais de professores de Matemática. Desde a sua fundação, a APM edita a revista Educação e Matemática, actualmente com uma periodicidade bimestral, com um corpo redactorial próprio e formado por associados. Publica artigos sobre temas de interesse geral, sobre a mudança curricular, com relatos de experiências inovadoras, materiais para a sala de aula, problemas e artigos de opinião. Esta revista é o principal elo de comunicação entre os associados ao longo do ano, complementando-se com a realização dos encontros e outras iniciativas. A APM, através do seu Grupo de Trabalho da Investigação, edita também, desde 1992, a revista teórica e de investigação Quadrante, que tem uma forte audiência em Portugal, sendo igualmente conhecida em países como a Espanha e o Brasil, de onde tem atraído colaboração significativa. O Grupo de Trabalho da Investigação mantém uma colecção de teses de mestrado e doutoramento no domínio da Educação Matemática realizadas em Portugal ou no estrangeiro por docentes e investigadores portugueses ou por autores de língua portuguesa. Este grupo realiza, desde 1990, um Seminário de Investigação, que tradicionalmente tem lugar nos dois dias que antecedem o ProfMat. O Centro de Recursos além de colocar à disposição dos associados recursos diversificados para serem utilizados directa ou indirectamente nas aulas, gere e organiza exposições que circulam pelas escolas. Este centro, com extensões nos Núcleos Regionais, disponibiliza materiais como baús temáticos (probabilidades, geometria, 1º ciclo, etc.) acompanhados de propostas de tarefas, jogos de estratégia, calculadoras, etc. que são constantemente requisitados pelas escolas. O centro promove igualmente círculos de estudos (actualmente, por exemplo, sobre pavimentações), com participação de professores de vários pontos do país. A par da revista, a APM, através do Grupo de Trabalho das Publicações, tem editado dezenas de títulos, da autoria dos associados ou traduções de obras relevantes no panorama actual da Educação Matemática. A APM tem ainda outros Grupos de Trabalho como o GT da Formação Contínua (que dirige o seu Centro de Formação), GT de História e Ensino da Matemática, GT de Geometria e GT do 1º Ciclo (que, ainda recentemente promoveu em Leiria um encontro nacional para os professores deste nível de ensino). A APM está também empenhada em vários projectos da sua responsabilidade, nomeadamente a construção de páginas na Internet, com o objectivo de lançar um concurso de problemas dirigido aos alunos dos vários ciclos de escolaridade, um forum de discussão sobre temas matemáticos, um centro de recursos virtual com materiais para o ensino da Matemática, um forum de resposta a questões sobre Matemática, dirigido a alunos, professores e ao público em geral. No domínio da formação, a APM está envolvida no projecto T3 (em colaboração com a Texas Instruments), de formação sobre a utilização da tecnologia gráfica no ensino da Matemática, que tem presentemente em curso diversas acções a nível de todo o país. Este projecto, por sua vez, alimenta, vários círculos de estudo em torno de calculadoras gráficas. Também no campo da formação, a APM tem promovido a realização de projectos diversos e realiza tradicionalmente nos dois dias anteriores ao ProfMat um alargado conjunto de cursos práticos que conhecem grande popularidade entre os professores. Todas estas actividades realizadas pela APM têm contribuído para enfrentar os problemas que se colocam aos professores de Matemática, possibilitando a informação, a troca de opiniões e oportunidades de esclarecimento, extensiva também para todos os que se interessam, de vários modos e com diferentes envolvimentos, pelas questões específicas da Educação Matemática ou da Matemática. Uma outra organização com um papel relevante na área do ensino da Matemática é a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM). Esta Sociedade foi criada no início da década de 1940, tendo revelado durante alguns anos um dinamismo notável, apesar da sua actividade incomodar fortemente os responsáveis políticos de então. Esvaziada dos seus elementos mais activos, só a partir de 1977 pôde esta sociedade retomar as suas actividades regulares, contando presentemente entre a maioria dos seus sócios professores dos ensinos básico e secundário. Entre as iniciativas da SPM com impacto na Matemática escolar é de destacar a publicação regular de um Boletim (com cerca de três números por ano) que inclui discussões sobre temas relacionados com o ensino da Matemática e artigos de actualização científica dos professores. De grande importância são também os encontros nacionais e regionais e debates como a Jornada de Reflexão sobre a Matemática no ensino secundário realizada em 1995. Estas actividades contribuem também de forma significativa para o diálogo entre os docentes dos ensinos não superior e superior. Numa actividade conjunta entre as Sociedades Portuguesa de Física, Química e Matemática tem sido produzido e divulgado software educativo para o ensino destas disciplinas, produzido pelo projecto Soft-Ciências. Este software foi distribuído às escolas em CD-ROM, numa iniciativa denominada "Omniciência 97", com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia. Uma iniciativa interessante promovida pela SPM é constituída pelas Tardes de Matemática organizadas pela sua Delegação Regional do Centro. Trata-se de palestras, debates e outras actividades para professores e alunos do ensino básico e secundário, iniciativa que tem contado com uma forte adesão das escolas a quem são destinadas. Têm-se realizado anualmente cerca de meia centena de acções, sem que cheguem a ser satisfeitos todos os pedidos. Cada ano cerca de vinte temas diferentes são propostos às escolas da região e estas indicam as suas preferências. A Delegação Regional do Centro comunica aos dinamizadores das acções, usualmente professores do ensino superior ou do ensino secundário, as escolhas efectuadas pelas escolas e os respectivos dinamizadores assumem inteira responsabilidade pela sua realização. Esta forma de proceder tem-se revelado ajustada às necessidades e as Tardes de Matemática têm decorrido de forma harmoniosa sendo, em geral, uma forma de contacto enriquecedora para os respectivos intervenientes. Outras sociedades científicas, como a Sociedade Portuguesa de Estatística (SPE) e a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Investigação Operacional (APDIO), têm mostrado igualmente interesse pelos problemas do ensino da Matemática, tendo dado a sua colaboração, por exemplo, no encontro A Matemática em Exame, organizado pela Universidade Aberta e a Universidade de Lisboa em 1995. A APDIO traduziu para português um vídeo da sua congénere americana, dirigido ao público jovem, que explica o que é a Investigação Operacional. A SPE tem promovido e realizado cursos de formação para Professores de Matemática, no âmbito da formação em Estatística e Probabilidades e participado nos cursos de formação do FOCO. Além disso, nos seus congressos anuais, a APDIO tem debatido o ensino da Investigação Operacional e a SPE tem debatido o ensino da Estatística e Probabilidades no ensino secundário. Finalmente, há a referir a Secção de Educação Matemática da Sociedade Portuguesa de Ciências de Educação (SEM-SPCE), que congrega os investigadores em Educação Matemática. Esta secção organiza anualmente, desde 1992, Encontros de Investigação, em que participam habitualmente várias dezenas de investigadores e professores, para além de convidados internacionais. O último destes Encontros, realizado este ano em Castelo de Vide, contou com cerca de uma centena de participantes e teve como tema as transformações actuais no currículo de Matemática. Como resultado destes encontros, existe uma importante colecção de publicações com relatos de investigação e documentos de reflexão sobre o currículo e a formação de professores. A SEM-SPCE organizou também, em 1994, uma Escola de Verão para investigadores sob o tema Matemática e Cultura. Esta secção tem produzido numerosos pareceres sobre problemas do ensino e da formação de professores e dinamiza, com a colaboração da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o primeiro forum electrónico português sobre os problemas do ensino-aprendizagem da Matemática (sem@fc.ul.pt).
2.2 Instituições de ensino superior e centros de formação As estruturas de formação inicial e contínua de professores têm um papel de destaque na rectaguarda do subsistema de ensino da Matemática. A formação inicial dos professores desta disciplina é feita em Universidades e Escolas Superiores de Educação, tanto do ensino superior público como privado. Algumas destas instituições possuem já um corpo docente estável e qualificado, capaz de proporcionar a formação científica e educacional, nas diversas áreas indispensáveis à formação dos futuros docentes, incluindo a Didáctica da Matemática. Outras têm procurado valorizar o seu corpo docente, facilitando-lhe a frequência de curso de mestrado e doutoramento. A formação de professores do 1º e 2º ciclo do ensino básico tem estado sobretudo entregue às Escolas Superiores de Educação, algumas das quais têm mostrado um assinalável dinamismo na participação em projectos e na realização de encontros. Algumas Escolas Superiores de Educação têm ainda participado activamente na formação contínua de professores promovendo a realização de acções de formação em ensino da Matemática, quer na própria instituição, quer, através de protocolos de colaboração, nos centros de formação de associações de escolas. A formação de professores do 3º ciclo e do ensino secundário tem sido assegurada principalmente pelas Universidades que têm procurado corresponder à grande falta de docentes nestes níveis de ensino alargando na medida das suas possibilidades o numerus clausus dos respectivos cursos. Algumas destas instituições têm promovido acções de divulgação das perspectivas actuais da Matemática e do ensino da Matemática e debate dos problemas existentes, como é o caso, em anos recentes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, da Universidade do Minho e da Universidade Lusíada (Porto). Algumas Universidades, para além da formação inicial, marcam também uma presença significativa na pós-graduação referente aos problemas do ensino e aprendizagem desta disciplina. Por exemplo, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, realiza um curso de mestrado desde 1985, na especialidade da Educação Matemática, promovendo ainda acções frequentes de formação contínua e especialização. Várias outras instituições têm oferecido mestrados em Educação ou em Matemática, onde por vezes se fazem teses sobre questões relacionadas com o ensino e aprendizagem desta disciplina, disponibilizadas a todos os interessados através da colecção de teses da APM. Nas instituições do ensino superior ESEs e Universidades a formação dos professores está a cargo de docentes especializados nos diversos domínios da Matemática, da Educação e da Didáctica da Matemática, um número significativo dos quais com formação pós-graduada. É de realçar que, em anos recentes, um número assinalável de matemáticos tem mostrado sensibilidade e interesse para os problemas do ensino e da aprendizagem desta disciplina, dispondo-se a colaborar em encontros de professores e acções de formação contínua. Os Centros de Formação das Associações de Escolas, embora debatendo-se com assinaláveis carências de formadores especializados nos problemas específicos do ensino-aprendizagem da Matemática, têm procurado proporcionar uma oferta de formação para os professores de todos os níveis de ensino, com particular ênfase nos níveis mais elementares. No domínio da formação contínua, merece especial referência a realização de acções com um cunho inovador oficinas de formação, seminários e círculos de estudo que se têm constituído em alternativas aos cursos escolares de formação, insistindo em auto-formação (naturalmente apoiada). Com estas iniciativas, os professores, em coordenação com os seus centros de formação, têm dado corpo a interessantes actividades formativas, realizadas em horários e locais adequados. Deste modo, vários centros têm apostado em centrar a formação nas próprias escolas, de tal modo que esta seja auxiliar da acção educativa e se constitua parte integrante da função docente. Por exemplo, os professores do ensino secundário de Matemática de Aveiro e arredores puderam familiarizar-se com as calculadoras gráficas e preparar materiais didácticos para a sua utilização em 1996. Iniciativas deste tipo, com a participação empenhada dos professores, têm sido realizadas já em vários centros de formação (com os mesmos guiões ou não) com um real impacto na satisfação dos docentes e na melhoria das prestações lectivas.
2.3 Organismos oficiais
O Instituto de Inovação Educacional (IIE) assumiu, nos últimos anos, um papel de relevo relativamente às questões do ensino da Matemática, promovendo estudos, realizando concursos de projectos de investigação anuais e plurianuais, promovendo projectos de investigação-acção no âmbito da Matemática, abrindo as páginas da revista Noesis à publicação de dossiers temáticos e artigos dedicados ao ensino desta disciplina e criando um espaço de Matemática nas suas páginas da Internet. O IIE promoveu no dia 26 de Maio de 1994 uma jornada de debate sobre a Matemática e o seu ensino que contou com larga cobertura dos meios de comunicação social. Este Instituto coordenou ainda a participação portuguesa no estudo internacional do Third International Mathematics and Science Study (TIMSS), cujo objectivo era comparar o ensino e a aprendizagem da Matemática e das Ciências em Portugal e em diversos outros países estrangeiros, e cujos resultados têm conhecido bastante eco na imprensa. Antes, o Departamento de Programação e Gestão Financeira (DEPGEF) havia promovido (em 1989-1992) a participação portuguesa no Second International Assessment of Educational Progress (SIAEP), visando avaliar o desempenho dos alunos de 9 e 13 anos. O Departamento de Ensino Secundário (DES) promoveu recentemente o ajustamento do programa do ensino secundário que, desde a sua implementação, vinha sendo alvo de numerosas críticas. Este ajustamento, conduzido por uma equipa técnica exterior ao Ministério da Educação, foi realizado no quadro de um amplo debate em que participaram numerosos intervenientes. Para apoiar o processo de implementação do novo programa, a partir do ano lectivo de 1997/98, foi criada uma Comissão de Acompanhamento do Programa de Matemática do Ensino Secundário, presidida pelo Director do DES, com representantes do Ministério da Educação (DES, DEB e IIE), os elementos da equipa técnica responsável pela proposta de ajustamento, e representantes da APM, SEM-SPCE, SPE e SPM, no que constitui um interessante exemplo de colaboração entre associações profissionais e científicas e organismos oficiais. O Departamento do Ensino Básico (DEB) lançou recentemente um processo de gestão participada do currículo, perspectivando uma nova relação entre o professor e o programa e uma nova concepção de currículo.
2.4 Projectos de investigação e de desenvolvimento curricular Portugal conta já com um significativo número de doutores e mestres em Educação Matemática. Na sua maior parte, os doutores fizeram a sua formação no estrangeiro (Estados Unidos, Inglaterra e França), mas alguns já obtiveram o seu grau em Portugal. Os mestres, na sua grande maioria, são formados pelas Universidades portuguesas. Esta comunidade científica ligada à investigação em Educação Matemática tem uma dinâmica própria, com encontros e seminários regulares de âmbito nacional e conta com uma revista da especialidade, a Quadrante. Nos últimos anos, para além dos projectos conduzidos por organismos
oficiais, indicados no ponto anterior, têm sido realizados diversos projectos plurianuais
de investigação em Educação Matemática. Alguns destes projectos foram apoiados por
instituições financiadoras oficiais (JNICT e IIE), sendo de referir, em especial, os
seguintes:
Dinâmicas de Inovação Curricular Matemática e Realidade (coordenado por João Filipe Matos), Modelação no Ensino da Matemática (coordenado por João Filipe Matos), Aprendizagem da Matemática em Contexto (coordenado por João Filipe Matos), e O Saber dos Professores: Concepções e Práticas (coordenado por João Pedro da Ponte), todos realizados no Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. POLYA Reforma Curricular e Educação Matemática: Investigação e Inovação Didáctica (coordenado por José Manuel Matos) realizado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa; Utilização de Materais na Resolução de Problemas (coordenado por Lurdes Serrazina), realizado na Escola Superior de Educação de Lisboa. Há ainda a referir a realização de diversos projectos realizados por equipas multi-institucionais, envolvendo investigadores das Universidades, de Escolas Superiores de Educação e, em muitos casos, professores de diversos níveis de ensino, e também financiados externamente: A Didáctica na Formação para o Desenvolvimento Profissional dos Professores, (coordenado por João Pedro da Ponte) realizado por uma equipa que inclui membros da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ESE da Universidade do Algarve, Universidade da Madeira, Universidade da Beira Interior, ESE de Leiria e ESE de Viseu e professores de diversas escolas; AMECC: Aprendizagens em Matemática: um estudo sobre a construção de conceitos (coordenado por José Manuel Matos), realizado por uma equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, ESE de Lisboa, ESE de Portalegre, ESE de Setúbal e ESE da Universidade do Algarve; Resolução de problemas: ensino, avaliação e formação de professores (coordenado por Domingos Fernandes), realizado por uma equipa da Universidade de Aveiro, ESE de Bragança, ESE de Castelo Branco, ESE de Viana do Castelo, E. S. Santa Maria Maior e Instituto de Inovação Educacional; Matemática para Todos (MPT) (coordenado por Paulo Abrantes), realizado por uma equipa que inclui investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, da ESE de Portalegre, da ESE de Setúbal, da ESE de Viseu e professores de diversas escolas. Os resultados destes trabalhos, para além de constarem dos relatórios finais publicados pelos próprios projectos, têm sido divulgados em artigos e comunicações em encontros nacionais e internacionais. O IIE promoveu a publicação de uma obra de síntese sobre a investigação realizada em Portugal, que se espera que venha a estar disponível ainda em 1997.
2.5 Projectos de intervenção e investigação-acção
Têm-se desenvolvido nos últimos anos em diversas escolas projectos de intervenção, de investigação-acção e de produção de materiais no domínio da Matemática. Alguns destes projectos visam a criação de Laboratórios de Matemática e de salas de trabalho para professores, enquanto outros têm um cunho vincadamente curricular. Por exemplo, na Escola Secundária Emídio Navarro, em Viseu, funciona um laboratório de Matemática, criado com o objectivo de promover o gosto pela Matemática nos alunos, proporcionando-lhes um contacto diferente com a disciplina. Os professores que usam este espaço procuram utilizar uma linguagem actual, provocar uma atitude diferente dos alunos durante as aulas, pondo ao seu alcance meios de "contestar", "inventar", "duvidar" e ao mesmo tempo de obter respostas. Procuram, assim, mudar os hábitos dos alunos, instalando no seu espírito o princípio de "ver e fazer para crer". Neste laboratório usa-se um método de ensino dirigido, baseado num "guia de trabalho" de que o aluno se serve para encetar as suas discussões e reflexões, as suas descobertas, experimentando e conjecturando, criando "novos" conceitos. Durante os anos lectivos de 1990/91 e 1991/92, muitas das aulas em duas turmas do 12º ano foram dadas com o apoio informático, mantendo os conteúdos do programa, mas tratando-os com metodologias inovadoras. Este laboratório de Matemática está equipado com 11 computadores (todos desactualizados, mas ainda capazes de correrem algum do software existente), uma televisão, um visor especial e uma impressora jacto de tinta. O laboratório inclui ainda um cubículo (antigo bengaleiro), onde está o servidor ligado à Internet e a dois computadores (um situado na sala dos professores e outro na biblioteca para uso dos alunos). Algumas escolas têm criado salas de trabalho para professores de Matemática. É o caso da Escola EB 2,3 de Damião de Góis, que nasceu da necessidade dos professores criarem um espaço próprio para reunir, organizar, construir e experimentar materiais didácticos. Para além das mesas e cadeiras, existem na sala dois armários que contêm livros, dossiers dedicados a diversos temas, calculadoras, sólidos geométricos, geoplanos, compassos, transferidores, réguas, tesouras, jogos didácticos, etc. Há ainda um computador, um quadro de cortiça e um quadro magnético. Muitos dos materiais aí existentes começaram por ser elaborados e/ou organizados por uma equipa constituída por quatro professoras e que incluía as delegadas do 2º e do 3º ciclos. Esses materiais estão disponíveis e são utilizados por todos os professores de Matemática destacando-se os que trabalham com alunos nas aulas de apoio pedagógico acrescido. Esse espaço é também utilizado por alunos acompanhados por professores para a realização de projectos no âmbito da área-escola, surgindo com frequência a afixação desses trabalhos no placard existente junto da sala. Um exemplo interessante de um projecto de cunho curricular é Os papagaios fazem voar a Matemática, desenvolvido no ano de 1994/95, também na Escola EB 2,3 de Damião de Góis, com alunos do 6º ano de escolaridade (10 a 13 anos de idade). Procurou-se envolvê-los em actividades de descoberta, de experimentação de materiais e de integração do seu conhecimento prático. O ponto de partida foi a preocupação de ir de encontro aos interesses dos alunos e criar uma situação que permitisse a interligação dos seus saberes informais e dos saberes escolares. No quotidiano, as crianças fazem e brincam com papagaios, mas muitas vezes não estão conscientes do conhecimento que envolve a sua construção. Assim, o desejo de fazer um papagaio foi a motivação para "saltar" para uma actividade matemática que, além disso, permitia a integração de outras áreas de saber: Educação Visual, Inglês e Língua Portuguesa. Numa primeira fase, os professores exploraram o conhecimento potencial que dos alunos, expondo-os e confrontando-os com uma actividade que valorizava o sensorial e integrava diferentes abordagens. De início, os alunos puderam falar das suas experiências com papagaios, pesquisaram informação junto de familiares, de documentos, de livros e visitaram exposições. Em grupo, planificaram o papagaio que iam construir, escolheram os materiais, fizeram estudos. Foi nesta fase que foram confrontados com diversas situações problemáticas que envolviam saberes matemáticos (cálculos, geometria, proporcionalidade). Com vista à sua divulgação final houve necessidade de discutir formas de apresentação, de coordenar acções e de avaliar processos. Os alunos tiveram, assim, a oportunidade de ter uma experiência viva da interacção da matemática com outros saberes escolares e na vida diária. O projecto evidencia que a Matemática pode constituir um ponto de partida para abordagens curriculares interdisciplinares envolvendo professores de diversas áreas, que é possível criar actividades que permitam o desenvolvimento de atitudes positivas dos alunos face à disciplina quando o seu conhecimento prático é integrado e que é possível conectar diferentes conteúdos matemáticos criando significado. Um outro projecto de carácter curricular, Métodos Quantitativos para o Ensino Artístico: Proposta de adaptação do programa, surgiu em 1993/94, ano de lançamento da Reforma Curricular, na Escola Secundária António Arroio, tradicionalmente vocacionada para o Ensino Artístico. Um grupo de professoras, preocupados com o grande insucesso na disciplina de Matemática e cientes de que o novo programa de Métodos Quantitativos era completamente desajustado às necessidades e interesses destes alunos, propôs-se criar um novo programa para esta disciplina. Este projecto foi simultaneamente um projecto de formação das professoras envolvidas, orientado pelo Centro de Formação da Associação de Professores de Matemática, um projecto de desenvolvimento curricular e uma experiência de inovação pedagógica. As principais preocupações presentes na elaboração do programa foram a inclusão da Geometria, a introdução de novas metodologias na prática pedagógica, nomeadamente a resolução de problemas e as actividades de investigação, a utilização de novas tecnologias, a criação de um laboratório de Matemática onde os alunos pudessem ter experiências de actividade matemática verdadeiramente interessantes, e a integração de saberes Arte/Matemática. Havia uma forte convicção por parte das professoras que uma das razões do insucesso e desinteresse dos alunos era a concepção tradicionalista e formalista que estes tinham da Matemática e que essa concepção podia ser alterada se se alterassem as práticas pedagógicas. Estas ideias foram sendo discutidas e postas em prática ao longo do ano lectivo, nas reuniões semanais em que as cinco professoras procuravam reflectir em conjunto sobre a sua prática, planificavam aulas e produziam materiais, analisavam e debatiam textos, etc. A reacção dos alunos a este projecto, que se prolongou até agora, tem sido bastante positiva. Praticamente deixou de haver abandono e, duma maneira geral, os alunos têm uma atitude favorável relativamente à disciplina e às tarefas que lhes são propostas. Muitos alunos que chegam ao 10º ano com percursos de insucesso a Matemática desde o 2º ciclo, conseguem ter sucesso (e gostar, até) da disciplina de Métodos Quantitativos. Alguns dos projectos desenvolvidos no âmbito do Centro de Formação da APM constituem excelentes exemplos de como a modalidade de projecto e o trabalho colaborativo entre professores pode desempenhar um papel muito relevante na auto-formação e no desenvolvimento profissional dos docentes. Além disso, mostram que um enquadramento dessas iniciativas que apoie efectivamente os professores na concepção, desenvolvimento, avaliação e divulgação dos seus projectos pode ser um factor de grande importância no respectivo sucesso. De um modo geral, estes projectos partiram da identificação de problemas educativos por parte de grupos de professores de uma escola ou de várias escolas e de uma intenção de intervir na resolução desses problemas que abrangeram propósitos tão distintos como a elaboração de programas alternativos, ou a concepção e experimentação nas aulas de propostas para a utilização das calculadoras gráficas e de materiais para o ensino da Geometria. A APM, através do seu Centro de Formação, apoiou a formulação inicial dos projectos e enquadrou-os legalmente (como modalidade de formação contínua), ajudou os membros das respectivas equipas a encontrarem recursos (humanos e outros) que dessem resposta a necessidades de formação reconhecidas e criou oportunidades para a divulgação do trabalho dos professores (em publicações, encontros e seminários de reflexão e discussão). Um outro importante projecto de intervenção no terreno da política e prática educativa é o Matemática 2001, da iniciativa da APM, e realizado com o apoio do IIE. Este projecto, a concluir em final de 1998, visa elaborar um diagnóstico da situação actual e um conjunto de recomendações sobre o ensino da Matemática nas escolas dos ensinos básico e secundário. Para isso, realiza um estudo aprofundado dos resultados dos alunos e das condições de trabalho das escolas, promovendo uma reflexão e discussão alargadas entre os professores da disciplina, analisando as práticas pedagógicas e as necessidades de formação, tendo por base uma recolha e análise crítica de estudos anteriores, a realização de um inquérito dirigido a professores de Matemática e reuniões com grupos de professores de Matemática das escolas.
2.6 Iniciativas de divulgação da Matemática Entre as iniciativas de divulgação da Matemática é de referir as Olimpíadas Nacionais de Matemática (ONM) que nasceram em 1980, sob a égide da Sociedade Portuguesa de Matemática, por iniciativa de alguns professores do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, como um concurso destinado às escolas da região de Coimbra. O interesse e adesão que suscitou levou a que a partir de 1983 se estendesse o concurso a nível nacional, adoptando a sua designação actual. Desde o início, um dos objectivos principais tem sido o de contribuir para incentivar e desenvolver o gosto pela Matemática, nos estudantes dos ensinos básico e secundário. As questões e problemas colocados pretendem fazer apelo às capacidades imaginativas dos estudantes e não tanto à quantidade de conhecimentos acumulados, disputando-se três categorias. A adesão de escolas e alunos ao concurso tem crescido de forma evidente: em 1983 participaram 151 escolas e 6.028 alunos e em 1996 participaram 676 escolas e 36.686 alunos. Perante tais números, é evidente que estamos perante o acontecimento na área da Ciência que mais jovens envolve, em todo o país. A APM, através do seu Centro de Recursos, tem produzido diversas exposições de grande sucesso destinadas a divulgar a Matemática junto de alunos, professores, pais e do grande público. Podemos referir, por exemplo, a "Aventura no País da Matemática", concebida originalmente em 1991, salientando aspectos lúdicos desta disciplina; "Descobrimentos e Ensino da Matemática", elaborada por professores e alunos com apoio da Comissão dos Descobrimentos, com instrumentos usados nas navegações; e "Sempre houve problemas", realizada pelo Grupo de Trabalho da História da Matemática e apresentada em 1996, com questões famosas da história da Matemática, acompanhadas de materiais manipuláveis. Em 1993 foi apresentada a exposição "Explorar, Jogar, Descobrir: A Matemática ao alcance de todos", realizada no quadro de um protocolo com a Câmara Municipal do Porto por iniciativa de um grupo de associados do Núcleo daquela cidade, e que está presentemente a ser montada como exposição permanente no Museu da Ciência do Porto. Presentemente, a APM colabora com o Museu da Ciência de Lisboa na elaboração de uma exposição permanente de Matemática. Entre 1985 e 1992 funcionou no Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra o Projecto "Computação no Ensino da Matemática" que realizou vários cursos e seminários onde participaram convidados nacionais e estrangeiros. A sua actividade mais importante foi a publicação da Folha Informativa Nonius, distribuída por todas as escolas da Região Centro, assim como por mais cerca de 500 assinantes individuais. Numa altura em que a divulgação das informações sobre o uso de computadores e calculadoras no ensino da Matemática era ainda escassa a Folha Informativa desempenhou um papel importante de divulgação das mais importantes ideias e novidades da área. Desde 1995 que têm vindo a ser elaboradas no Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra páginas WWW sobre Matemática que podem ser consultadas via Internet. Essas páginas incluem informações e textos sobre História da Matemática, Computadores e Calculadoras no Ensino da Matemática e Matemática Elementar. Inclui ainda listas de outros sítios da Internet onde podem ser encontradas informações de interesse sobre estes temas. Apesar de as escolas terem ainda uma ligação limitada à Internet a página conta já com mais de 2000 visitantes no último ano de funcionamento. Estas páginas estão incluídas no CD-ROM "Omniciência 97". Finalmente, pode afirmar-se que o movimento editorial relativo à publicação de obras de divulgação dirigidas ao público em geral e que têm como tema central a actividade matemática nunca foi tão forte como acontece actualmente. De facto, várias editoras comerciais têm vindo a lançar no mercado livros de problemas, temas e curiosidades matemáticas, ou que tratam dos aspectos históricos, filosóficos e sociais do desenvolvimento e aplicações da Matemática, existindo mesmo colecções dedicadas inteiramente a estes assuntos.
Depois de longos anos sem quaisquer relações significativas com o exterior, foram retomados nos anos 80 os contactos com o movimento internacional de educação matemática. Investigadores e professores portugueses passaram a participar com regularidade nos congressos internacionais mais importantes, como os do ICMI (International Congress for Mathematics Education), PME (Psychology of Mathematics Education), CIEAEM (Comission pour lÉtude et lAmélioration de lEnseignement des Mathématiques) e HPM (History and Pedagogy of Mathematics). Alguns destes encontros têm-se realizado em anos recentes em Portugal (CIEAEM, 1983 e 1997, HPM, 1996; PME, 1994). Elementos portugueses têm sido eleitos e convidados para exercer cargos de direcção em organizações e revistas internacionais e participam actualmente dos esforços para a criação de uma Sociedade Europeia de Investigação em Educação Matemática. A internacionalização da Educação Matemática portuguesa tem proporcionado uma colaboração cada vez mais frequente de investigadores estrangeiros em projectos realizados em Portugal. Esta forte relação com o movimento internacional tem possibilitado um acompanhamento dos debates mais importantes que se têm realizado por todo o mundo sobre os problemas do ensino e aprendizagem da Matemática. A actividade dos investigadores e professores portugueses tem sido divulgada junto dos seus colegas de outros países, proporcionando uma reflexão mais aprofundada, ao mesmo tempo que se vai obtendo um conhecimento mais directo das dificuldades e dos problemas alheios frequentemente semelhantes aos nossos. O intercâmbio internacional tem estimulado a investigação e o desenvolvimento curricular em Portugal em Educação Matemática, reforçando a sua originalidade, cujo traço mais característico é talvez a sua abertura à inovação e à colaboração entre investigadores e professores. Home Propostas |